Casas de apostas com criptomoedas: quem aceita, quem não pode

Updated Outubro 2026
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Das casas com licença SRIJ para apostas desportivas à cota avaliadas, uma — Solverde — declara nos seus próprios termos um método de pagamento chamado «Pay With Crypto», indisponível no primeiro depósito. Nenhuma das outras sete diz o que faz.

Uma moeda física de bitcoin ao lado de um telemóvel com um talão de aposta no ecrã, sobre uma mesa escura
O white paper do Bitcoin, assinado pelo pseudónimo Satoshi Nakamoto e intitulado «Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System», foi divulgado numa lista de correio de criptografia a 31 de outubro de 2008.

Análise de 29 de Outubro, 2026, com os dados de 29 de Outubro, 2026 verificados contra a lista «Entidades licenciadas» do SRIJ (atualizada a 19 de outubro de 2026) e contra as páginas de ajuda dos próprios operadores.**

A busca por «casas de apostas com criptomoedas» chega a Portugal com uma ideia errada: a de que existe uma categoria separada, um nicho com regras próprias. Em Portugal, não existe. O regime dos jogos e apostas online não foi desenhado à volta de ativos criptográficos, e as suas regras não trazem uma linha dedicada a eles — nem a proibir, nem a autorizar. O que existe é um regime de apostas desportivas à cota com uma subdivisão por modalidade — e dentro dele, um método de pagamento ou nenhum.

A consequência prática é esta: a pergunta útil não é «aceita bitcoin?», é «esta casa está autorizada em Portugal e, estando, o que é que os termos dela aceitam como pagamento?». Uma casa pode estar perfeitamente licenciada e não tocar em criptomoedas. Outra pode estar licenciada e aceitá-las como depósito. Nenhuma das duas coisas decorre da outra.

E há a metade da internet de apostas que responde à mesma busca comdomínios .com, licenças estrangeiras e publicidade agressiva. Essa metade não está em disputa legal: está fora do sistema. Aceitar jogadores portugueses sem licença SRIJ é crime, punível com prisão até cinco anos ou multa até 500 dias. Um jogador nesse site não tem proteção legal nenhuma — nem verificação de identidade, nem ferramentas de limite, nem registo central de autoexclusão.

As oito casas avaliadas e onde cada uma se posiciona

Este não é um ranking e não é uma recomendação. Sete das oito marcas aqui reunidas constam da lista de entidades licenciadas do SRIJ e detêm a licença de «apostas desportivas à cota», com um site próprio em .pt Required pela lei. Essa lista, atualizada a 19 de outubro de 2026, nomeia 19 marcas; treze detêm a licença de apostas desportivas, dez em atividade e três suspensas a pedido da própria operadora. Uma suspensão é uma pausa voluntária, não é uma revogação nem uma passagem para o offshore. As outras seis marcas da lista têm licença de casino e nada mais — e uma licença de casino não diz nada sobre o livro de apostas.

O quadro seguinte reúne o número da licença, a society que a detém e o que os termos do operador dizem sobre o tema que nos traz aqui: pagamento e IMA.

Marca Licença SRIJ e titular O que os termos da casa dizem
ESC Online n.º 008 «Apostas desportivas à cota» — Estoril Sol Digital, Online Gaming Products and Services, S.A. O bónus de boas-vindas dá uma aposta grátis de 10 € por cada 10 € apostados em dinheiro real a cotas de 2,00 ou superiores
Betano n.º 018 «Apostas desportivas à cota» — Kaizen Gaming International Limited Oferta de boas-vindas multiproduto em quatro etapas, com depósito e apostas grátis
bwin n.º 002 «Apostas desportivas à cota» — GOBET-Entretenimento, S.A. Depósitos por MB WAY com limite mínimo de 5 EUR por transação
Casino Portugal n.º 007 «Apostas desportivas à cota» — SFP Online S.A. O registo oferece freespins ou uma aposta grátis, sem depósito
Solverde n.º 024 «Apostas desportivas à cota» — Solverde – Sociedade de Investimentos Turísticos da Costa Verde, S.A. «Pay With Crypto» entre os depósitos; PayPal e «Pay With Crypto» indisponíveis no primeiro depósito
LeBull n.º 027 «Apostas desportivas à cota» — Southern Stingray, S.A. A aplicação remete para a autoexclusão na página do SRIJ
Placard.pt n.º 013 «Apostas desportivas à cota» — SAS Apostas Sociais, Jogos e Apostas Online, S.A. Aposta mínima de 0,10 € no Placard.pt; limites de apostas, depósitos e perdas definíveis pelo jogador
Betclic n.º 001 «Apostas desportivas à cota» — BEM Operations Limited FastBet para apostas em direto em três toques; Cash Out na aplicação

Dois nomes merecem uma nota de leitura antes de qualquer coisa: o titular da licença raramente tem o nome da marca — a bwin é GOBET-Entretenimento, a Betclic é BEM Operations Limited, a Betano é Kaizen Gaming International Limited — e a Placard.pt é uma empresa própria, com as suas próprias bases de dados e as suas próprias cotas, sem nada partilhado com a Placard da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Quando se escreve «Placard» sem mais, pode estar-se a chamar duas coisas diferentes: o jogo de aposta fixa de base territorial dos Jogos Santa Casa, regulado pelo Decreto-Lei n.º 67/2015 e fora do âmbito do RJO, e o site de apostas online da licença n.º 013. Confundir os dois é um erro comum e caro.

Fundamentos: o que o bitcoin é, e porque é que interessa a quem aposta

A histories do bitcoin começa num documento. A 31 de outubro de 2008, numa lista de correio de criptografia, foi divulgado um white paper assinado pelo pseudónimo Satoshi Nakamoto e intitulado «Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System». Menos de dois meses depois, a 3 de janeiro de 2009, Nakamoto minerou o bloco inicial da cadeia, o bloco génesis, e a rede passou a existir. Nove dias após essa data ocorreu a primeira transação: Hal Finney recebeu dez bitcoins enviados pelo próprio autor do protocolo.

Uma bola de futebol pousada sobre um talão de apostas em branco numa mesa de madeira, à luz do dia
A rede Bitcoin foi criada a 3 de janeiro de 2009, quando Satoshi Nakamoto minerou o bloco inicial da cadeia, conhecido como bloco génese.

O bloco génesis leva dentro de si a mensagem «The Words 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks», que se lê como comentário ao sistema financeiro da altura. O bitcoin nasceu, literalmente, de uma conversa sobre o bailout.

A arquitectura que daí saiu importa para quem pensa em usar cryptocurrencies como meio de pagamento numa casa de apostas. A rede assenta no mecanismo de consenso prova de trabalho, com o algoritmo SHA-256, e o processo de validação chama-se mineração. Em média cria-se um novo bloco a cada 10 minutos, e a dificuldade de mineração é recalibrada a cada 2 016 blocos — cerca de duas semanas. A emissão tem um tecto: o limite máximo é de 21 milhões de unidades. A recompensa por bloco reduzido pela metade a 3,125 bitcoins em 19 de abril de 2024, e continua a reduzir-se de 50 % a cada 210 000 blocos, pelo que a emissão total deverá concluir-se por volta de 2140.

Traduzido para quem está a tentar pagar um depósito: os pagamentos em bitcoin não são instantâneos, não são gratis e não são reversíveis. Cada confirmação é um bloco novo, ou seja, cerca de dez minutos. Uma transação que sai da tua carteira pode ser vista por toda a rede antes de ser irrepetível, e o erro no endereço de destino não tem recuperação. É o oposto exato de um pagamento com cartão, onde uma contestação ainda existe.

O bitcoin é, para a Autoridade Tributária e Aduaneira, um dos criptoativos de alta, ao lado de Ether, Ripple e Litecoin. É a única referência a criptoativos que se encontra na lei e na orientação fiscal portuguesa — e ela não tem nada a dizer sobre apostas.

O regime aplicável às apostas desportivas online em Portugal é o Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online, o RJO, constante do Anexo I do Decreto-Lei n.º 66/2015, de 29 de abril. A lei foi alterada depois, pela Lei n.º 2/2020; se foi reformada outra vez, subsequentemente, não é isso que se afirma aqui. O que interessa é o que o RJO diz hoje, sem atténuation.

Uma folha de licença em papel com um selo vermelho, pousada numa secretária de madeira ao lado de uma caneta
O bloco génese do Bitcoin contém a mensagem «The Words 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks», interpretada como comentário ao sistema financeiro.

O SRIJ — Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos, integrado no Turismo de Portugal, I.P. — é o regulador. Compete-lhe, com a comissão de jogos, conceder, prorrogar, suspender e revogar licenças, emitir regulamentos e decidir os processos de contraordenação. Mantém o registo de entidades licenciadas e dos seus sítios, e o registo central de jogadores autoexcluídos ou impedidos por decisão judicial.

Duas regras do artigo 9.º explicam a maior parte do ruído desta busca. Uma licença estrangeira não é válida em Portugal (n.º 3): não importa que o operador tenha licença em França, em Malta ou emwhatever o país; para servir jogadores portugueses, a licença é a do SRIJ. E o sítio do operador tem de estar sob .pt, com todo o acesso proveniente de Portugal redirecionado para lá (art. 28.º n.º 1). O que fica no índice de um operador estrangeiro com .com não é uma versão portuguesa da casa — é outra casa, sem licença, e a aceitar jogadores ilegalmente.

A terceira regra é de forma: o sítio tem de exibir o logótipo do SRIJ e a referência da licença (art. 30.º). Um ecrã de cookies e um rodapé com letra miúda onde a licença não está não é ausência de licença — mas é, no mínimo, uma coisa que o jogador tem de ir procurar. E a licença tem prazo: três anos, renováveis por períodos de três, com garantias de 500 000 € e 100 000 €.

O que se pode apostar é uma lista fechada. Só é possível apostar nas modalidades, competições e eventos que o SRIJ aprova (art. 5.º n.º 5), e as apostas online não reguladas são proibidas (n.º 4). A lista «Modalidades e competições», atualizada a 9 de outubro de 2026, admite apostas simples e múltiplas, pré-evento ou em direto; o futebol, por exemplo, tem o «próximo marcador», a prolongação e a resolução por grandes penalidades apenas em direto, o «pontapé de saída» apenas antes do jogo, os mercados 1X2, golos, cantos, handicap, resultado exato e primeiro marcador nos dois momentos, e não permite os mercados rápidos de «próximo minuto» e «próximos 5 minutos». As desportos na lista são andebol, atletismo, badminton, basebol, basquetebol, ciclismo, críquete, dardos, desportos de inverno, desportos motorizados, futebol americano, futebol, futebol de praia, futsal, golfe, hóquei em campo, hóquei em patins, hóquei no gelo, MMA, padel, pólo aquático, rugby, snooker, surf, ténis, ténis de mesa, voleibol e voleibol de praia, mais os Jogos Olímpicos. A lista de 9 de outubro de 2026 não nomeia e-sports nem desportos virtuais — o que é uma omissão da lista, não uma proibição legal, e a diferença importa se um dia alguém perguntar.

Juvenis estão fora. É proibido apostar em qualquer evento, prova ou competição abaixo do escalão sénior (art. 5.º n.º 6), e quem possa influenciar um resultado — árbitros, treinadores, atletas, agentes — não pode apostar em eventos a que esteja ligado (art. 6.º i)). A idade mínima é dezoito anos.

E o que diz o RJO sobre criptomoedas? Nada. Não há artigo, não há alínea, não há referência. Não se pode escrever que as criptomoedas são proibidas em Portugal, porque não são — mas também não se pode escrever que são permitidas, porque a lei não as menciona. Quem escreve «a lei portuguesa não proíbe Depositar em bitcoin» está a dizer uma coisa verdadeira; quem escreve «a lei portuguesa permite Depositar em bitcoin» está a dizer uma coisa que a lei não diz. A resposta honesta a «podem as casas de apostas licenciadas em Portugal aceitar criptomoedas?» é que a lei não responde: respondem os termos de cada operador, um a um.

E note-se o que o artigo 42.º exige quando aceita pagamento: instrumentos de pagamento eletrónicos, em euros, emitidos por prestadores autorizados e que identifiquem o pagador. Não há registo de uma lista de trilhos aprovados nem de uma regra sobre carteiras eletrónicas ou criptoativos — o que é uma lacuna da lei, não umirebase verde. O que a lei exige sem ambiguidade é outro: NIF, conta de pagamento nominal, levantamentos apenas para essa conta, nenhum empréstimo ao jogador, nenhuma aposta anónima. Uma casa que peça um NIF e uma conta bancária e depois aceite bitcoin não está a violar nada — se não estiver a mentir sobre o resto.

Jogo responsável: o que a lei impõe e o que cada casa acrescenta

O Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online não fixa tampa em euros para depósitos, apostas ou perdas. O que fixa é um mecanismo: o plano de jogo responsável do operador tem de permitir ao jogador limitar os valores depositados e as apostas feitas, e o regulador exige pelo menos um limite diário, semanal ou mensal, válido apenas no operador onde foi definido. Os limites que o jogador fixa contam também para os créditos de bónus, ao abrigo da Orientação n.º 2/2017. How long a elevation de um limite demora não é coisa que se possa afirmar; o que se sabe é que a casa tem de ter o mecanismo, não que o tenha de aplicar depressa.

Duas decisões onde o jogador se engana fácil: a autoexclusão e a proibição. A autoexclusão (art. 39.º) feita no sítio de um operador barra apenas aquele sítio; a feita na plataforma do SRIJ barra todos os sítios licenciados. O período mínimo é de três meses, por data escolhida ou por prazo indeterminado; terminar ou encurtar a autoexclusão só produz efeitos um mês depois da comunicação. Uma exclusão por prazo fixo suspende a conta e permite levantamentos; uma exclusão por prazo indeterminado cancela a conta e o saldo vai para a conta de pagamento do jogador. Ninguém abre conta durante uma exclusão. A proibição é outra coisa inteiramente: barra a entrada em salas de casino terrestres, e nunca se funde com a autoexclusão online. Um site sem licença não está ligado ao registo de autoexclusão — ponto cego, não margem de manobra.

Depois há a linha 1414, SOS Jogador, do ICAD, com horário útil 10:00–18:00, gratuita e confidencial.

A Placard.pt dá a esta parte uma forma concreta. Nos seus termos e condições, a aposta mínima é de 0,10 €, o valor máximo e mínimo das apostas desportivas é definido pelo operador e pode variar com os limites do evento, e há ferramentas para impor limites de apostas, de depósitos e de perdas, com autoexclusão de duração mínima de três meses. A LeBull leva o jogador até lá pela aplicação: a app remete para a autoexclusão na página do SRIJ e recomenda definir limites de tempo e de valor. São duas decisões de produto diferentes — a primeira dá-te o botão, a segunda dá-te o caminho — e as duas resolvem a mesma necessidade de formas diferentes.

Blockchain, pseudonimato e o que significa pagar com cripto

Há uma confusão que vale a pena desfazer antes de qualquer discussão sobre casas de apostas. Blockchain é a tecnologia de registo distribuído que sustenta o bitcoin; carteira é o software que guarda as chaves que assinam as suas transações; pseudonimato é o regime de identificação em que a rede o número da carteira e não a pessoa que a controla. Nenhuma destas três coisas é anonimato. Um blockchain é público e permanente: cada transação fica registada para sempre, ligando pseudonimamente — e, com esforço suficiente, não anonimamente — a quem envia e quem recebe.

E é aqui que o pagamento em bitcoin choca com a lei portuguesa de apostas, não porque a lei o proíba, mas porque os requisitos colidem. O registo exige NIF, conta de pagamento nominal do jogador e levantamentos apenas para essa conta; a identidade é verificada com Cartão de Cidadão, Chave Móvel Digital, uma verificação em tempo real através do SRIJ ou uma cópia de documento (art. 37.º), e há uma conta por pessoa por sítio (art. 40.º n.º 2). Não há jogo anónimo. Se uma casa de apostas licenciada aceita BTC num depósito, não está a contornar isso: está a receber um pagamento de uma carteira e a pagá-lo a uma conta nominal verificada — e a identidade que a lei exige não está na transação, está no cadastro. Pagar em cripto não é apostar sem registo. É BETTER, no pior dos casos, um depósito que chega mais devagar, custa mais e não se desfaz.

Quanto ao que uma carteira não desfaz, vale a pena dizer o que já se disse: cada bloco demora cerca de dez minutos, e o destinatário errado é definitively perdido. Uma casa que aceite «Pay With Crypto» por Razão tem de publishar, nos termos, qual a rede, se aceita BTC, ETH ou Litecoin, se há valor mínimo e qual é o prazo de creditação. Se os termos não dizem isso, a pergunta fica sem resposta antes da primeira transação.

Do lado do crypto há uma variável que o jogador controla e o operador não: a volatilidade. A Autoridade Tributária e Aduaneira, no seu folheto sobre criptoativos, cita o Bitcoin ao lado de Ether, Ripple e Litecoin como exemplos de criptoativo em alta — e trata-os fiscalmente como criptoativos. Não é um detalhe: quem entra com bitcoin, entra com um valor que em euros muda a meio da noite, e essa é a natureza do ativo, não uma manobra da casa.

Fiscalidade: os 28 %, os 365 dias e o IEJO

Do lado do apostador, a Autoridade Tributária e Aduaneira explica assim: as mais-valias positivas com criptoativos, incluindo bitcoin, que não estejam excluídas de tributação são tributadas à taxa autónoma de 28 %, podendo o taxpayer optar pelo englobamento na declaração anual de IRS. Fora desse regime, os ganhos e perdas com a alienação de criptoativos que não sejam valores mobiliários, detidos por um período igual ou superior a 365 dias, estão excluídos de tributação em IRS.

São duas regras distintas: uma taxa de 28 % sobre mais-valias de criptoativos de curto prazo, e uma exclusão para os mantidos um ano ou mais. Aplicadas a apostas, não são elas o que se vai ter de pagar — porque aposta não é criptoativo. Uma aposta é um contrato de jogo: o prémio é a estake multiplicada pela cota, e o valor que ganha ou perde é um resultado de jogo, não uma mais-valia de um ativo financeiro. O que muda é a HOUSE: o operador paga o Imposto Especial de Jogo Online de 8 % sobre as apostas de cota fixa em apostas desportivas — sobre as stakes, o valor apostado, mais qualquer comissão cobrada, não sobre o receita bruta (art. 90.º RJO) — e os créditos de bónus usados como aposta contam como stakes. A escala progressiva de 8 % a 16 % que se lê em textos antigos foi revogada; escrevê-la hoje é estar errado.

A ameaça fiscal que paira sobre a cabeça de quem aposta nas plataformas legalizadas é mínima e é de outro sítio. Em esquemas comunicados pela imprensa em outubro de 2026, os prémios pagos por operadores licenciados não são tributados nas mãos do jogador nem declarados — uma afirmação veiculada por ALDME, não confirmada numa página da Autoridade Tributária, e por isso fica aqui o conselho de confirmar com a Autoridade Tributária ou um contabilista. Para prémios de sites não licenciados ou estrangeiros, a posição não está estabelecida: nem «isento» nem «tributável». E há uma proposta de tributar em IRS os ganhos líquidos anuais acima de 500 €: é proposta, não lei. O imposto do selo de 4,5 % sobre o preço de cada aposta e 20 % sobre a parte de prémio acima de 5 000 € é do regime retalhado da Placard da Santa Casa e não se escreve para marcas com licença RJO.

O que este enquadramento faz consigo mesmo

Some-se o desenho e chega-se a uma conclusão que é menos dolorosa do que parecia. O sistema português de apostas desportivas online está construído para dinheiro fiat, para identidade nominal e para supervisão em tempo real. Não é um sistema hostile à tecnologia; é um sistema que nunca precisou dela. As criptomoedas entram nele, se entrarem, pela porta mais estreita: um método de pagamento à parte, num operador que primeiro já provou ter licença, ter identidade e ter limites.

É por isso que uma tabela com dois campos, marca e número de licença, decide mais do que uma tabela com vinte. O número diz-te se existe um caminho de reclamação, uma tutela de autoexclusão e uma sanção se algo correr mal. O método de pagamento diz-te quanto tempo demora e se o erro se recupera. Só um dos dois é fatal quando falha, e não é o que o jogador costuma pensar.

E há a hipótese que ninguém anuncia: que a casa licenciada, um dia, deixe de aceitar. Nada na lei obriga uma casa a oferecer esta opção, e nada impede que a retire. Se a única opção de pagamento em bitcoin que encontraste desaparecer, o que perdes não é um método — é a razão por que escolheste aquela casa.

As sete outras casas, e o que cada uma resolve

Para cada uma destas casas, o que segue é o que os termos e a ficha de licença permitem dizer. Onde a casa não fala do tema, não há nada a relatar: escreve-se o que se sabe dela e o que o jogador pode ir confirmar, e a ausência não é um achado. Betano e ESC Online, bwin, Casino Portugal, LeBull, Placard.pt e Betclic.

ESC Online — a oferta que se mede em apostas grátis, não em euros

Licença SRIJ n.º 008 «Apostas desportivas à cota», emitida em nome de Estoril Sol Digital, Online Gaming Products and Services, S.A. Nos termos da casa, a oferta de boas-vindas para apostas desportivas dá uma aposta grátis de 10 € por cada 10 € depositados, até dez apostas grátis — máximo de 100 € —, desbloqueadas por cada 10 € apostados em dinheiro real a cotas de 2,00 ou superiores, e os ganhos das apostas grátis são pagos em dinheiro real.

Repare-se na estrutura: o valor máximo da oferta (100 €) é dez vezes o valor de uma unidade (10 €), e cada unidade custa dez euros apostados a uma cota mínima. A restrição às cotas de 2,00 ou superiores é a condição que decide. Com um mínimo de 2,00, dez euros em apostas rendem dez unidades de bónus comprobability limitada pela sua própria. Com um mínimo mais baixo, o mesmo dinheiro exigiria mais volume de apostas. É a condição que faz o bónus, não o número do bónus.

Betano — quatro etapas, e o depósito é a chave de tudo

Licença SRIJ n.º 018 «Apostas desportivas à cota», em nome de Kaizen Gaming International Limited. A oferta de boas-vindas multiproduto chega a 250 € e tem quatro etapas: na primeira, depositar 10 € dá 30 € para jogar (20 € em apostas grátis e 20 rodadas); na segunda, bónus de 100 % até 100 € e 5 € em aposta grátis; na terceira, 10 € em aposta grátis; na quarta, aposta sem risco até 100 €.

Quatro etapas é uma frase de estrutura, não uma frase de valor. O que há a observar é que o valor máximo de 250 € é a soma dos quatro andares e que a primeira etapa — a única que dispara com um depósito mínimo de 10 € — é também a única que dá volume inmediato. Quem deposita 10 € fica com 30 € para jogar; quem deposita 200 € não ganha a terceira etapa por ter depositado mais, ganha-a ou não conforme o que fizer depois. É uma oferta desenhada para a primeira sessão, não para a carteira grande.

bwin — o MB WAY e os quatro minutos que ninguém lê

Licença SRIJ n.º 002 «Apostas desportivas à cota», em nome de GOBET-Entretenimento, S.A. Nos termos da casa, os depósitos por MB WAY têm um limite mínimo de 5 EUR por transação, são creditados instantaneamente, o pagamento tem de ser confirmado na app MB WAY em 4 minutos, e o MB WAY não está disponível para levantamentos.

Quatro minutos é o número que interessa. Um depósito que tem de ser confirmado em 4 minutos na aplicação do banco é um depósito que expira; se o jogador passa do tempo, o dinheiro não entra, ou entra depois de uma nova tentativa. E o MB WAY, por ser instantâneo e ir-lhe muito bem, serve para entrada — não para saída. Umbetor que use MB WAY com regularidade precisa de um segundo método de levantamento preparado antes de encher a conta, porque aquele que usava para entrar não serve para sair.

Casino Portugal — sem depósito, e o que isso quer dizer

Licença SRIJ n.º 007 «Apostas desportivas à cota», em nome de SFP Online S.A. Na loja de aplicações, a casa anuncia 20 freespins ou 2 € em aposta grátis no registo, sem depósito, a pedir à equipa.

«Sem depósito» é uma distinção técnica e não comercial: o que o jogador recebe no registo não vem de um depósito, e o que vem é pequeno — 20 freespins ou 2 €. De duas coisas. O resto da operação está onde está em qualquer casa. O pedido de equipa, por si, não acrescenta nada — quem quiser saber os termos da promoção vai aos termos da casa, não ao ecrã da aplicação.

LeBull — a casa que aponta para o regulador

Licença SRIJ n.º 027 «Apostas desportivas à cota», em nome de Southern Stingray, S.A. Na aplicação, a marca remete para a autoexclusão na página do SRIJ e recomenda definir limites de tempo e de valor.

É a única das oito que, no seu próprio produto, não tenta fazer de limite uma função da casa — remete a quem o quer definir para o regulador. Um limite definido na LeBull vale só na LeBull; um limite definido na plataforma do SRIJ vale em todas as casas licenciadas, incluindo as outras sete aqui. O botão está aqui. O cofre está lá fora, e a diferença entre os dois é a diferença entre um limite e uma saída.

Placard.pt — 10 cêntimos, e a diferença entre o online e a Santa Casa

Licença SRIJ n.º 013 «Apostas desportivas à cota», em nome de SAS Apostas Sociais, Jogos e Apostas Online, S.A. Nos termos da casa, o valor mínimo de uma aposta é de 0,10 €, o valor máximo e mínimo das apostas desportivas é definido pelo operador e pode variar com os limites do evento, e há ferramentas para impor limites de apostas, de depósitos e de perdas com autoexclusão de duração mínima de três meses.

Um valor mínimo de dez cêntimos muda o que uma casa de apostas é. A stake deixa de ser uma posição financeira e passa a ser um hábito, e é por isso que a mesma casa que aceita uma aposta de dez cêntimos é, estruturalmente, uma casa diferente da que aceita cinco euros. E as ferramentas de limite não são um extra: existem porque a lei exige que existam, no plano de jogo responsável. Quem joga aqui tem, à mão, os três botões que a lei obriga — apostas, depósitos, perdas — e um caminho de autoexclusão de três meses.

Chamar-se Placard não é o mesmo que ser a Placard da Santa Casa. A operação de jogos sociais do Estado — Euromilhões, Totoloto, Lotaria, Raspadinha e Totobola — é exclusiva da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e a Placard é aposta fixa de base territorial em talões ou terminais da Santa Casa ou de seus mediadores autorizados, sob o Decreto-Lei n.º 67/2015. O RJO exclui ambos do seu âmbito (art. 2.º n.º 2 h) e i)). A Placard.pt é uma licença RJO, empresa diferente, sem bases de dados nem cotas partilhadas. E o Totobola é um jogo de apostas combinadas de Estado, não uma aposta à cota de bookmaker — nunca entra numa lista de casas de apostas.

Betclic — três toques, e o que cash out faz à aposta

Licença SRIJ n.º 001 «Apostas desportivas à cota», em nome de BEM Operations Limited. Na aplicação, a casa oferece o modo FastBet para apostas em direto — a aposta fica confirmada em três toques no ecrã —, e a funcionalidade Cash Out, que permite encerrar uma aposta desportiva antes de o resultado estar fechado. O Multiboost aumenta as cotas das apostas múltiplas, até +50 % em ganhos, e o Supersub dá a aposta como ganha se o suplente do marcador escolhido fizer um golo.

Três toques e um resultado em direto são a mesma promessa, feita ao cliente. O que merece leitura antes de usar FastBet é o lado que não aparece nestes três toques: o cash out. Cash out não aparece na lista «Modalidades e competições» do SRIJ — é uma função do operador, não uma modalidade do regime — e o que ele faz é converter um resultado incerto num preço. Num momento em que o jogo está a correr, o cash out é uma saída antecipada a um valor que o operador calcula. Quanto mais perto o jogo está do fim e mais unfavorable o cenário, mais o preço desce: quando o valor do cash out chega a zero, o que não se recupera é a aposta. O Multiboost, esse, é a aposta múltipla com as cotas aumentadas, até +50 % nos ganhos — e aumenta o retorno na mesma medida que aumenta o volume de apostas que tem de acertar para o merecer.

Solverde — a única com «Pay With Crypto», e o que esse nome cobre

Licença SRIJ n.º 024 «Apostas desportivas à cota», em nome de Solverde – Sociedade de Investimentos Turísticos da Costa Verde, S.A. Nos termos da casa, os depósitos aceitam Multibanco, MB WAY, Maestro, Visa, Mastercard, Skrill, Neteller, PayPal, Apple Pay, «Pay With Crypto» e Paysafecard, com PayPal e «Pay With Crypto» indisponíveis no primeiro depósito.

Uma casa com «Pay With Crypto» nos termos é uma casa que, quando se lê a expressão, não confirmou qual é o resto. «Pay With Crypto» é um nome de método de pagamento, não de rede, não de moeda, não de prazo: não diz se aceita BTC, ETH ou Litecoin, nem que valor mínimo, nem quanto tempo demora a creditar. A única coisa que está definida é que não serve para o primeiro depósito — o que, na prática, significa que a primeira entrada de dinheiro tem de ser feita por Multibanco, MB WAY, cartão ou carteira eletrónica. É também a informação mais útil dos termos: quem chega ao site a pensar que vai entrar em bitcoin tem de levar uma via clássica no primeiro depósito.

Sendo a única das oito a nomear pagamento em criptomoedas nos termos que a casa publica, é a única que se pode citar como o aceita — sem explicar como. E é por essa razão que a lista de casas com apostas com criptomoedas não é uma lista de sete marcas com BTC: é uma lista de sete marcas com licença, das quais uma a aceita.

O que nenhuma das sete resolve

Feito o balanço: das sete marcas restantes, duas têm uma nota sobre pagamentos (bwin com MB WAY, Solverde com Pay With Crypto), duas têm uma nota sobre bónus (ESC Online e Betano, as duas com condições de aposta mínima), uma tem limites de aposta e ferramentas de salvaguarda explícitas (Placard.pt), uma tem o caminho de autoexclusão mais directo (LeBull), uma tem as funções FastBet, Cash Out, Multiboost e Supersub (Betclic), e uma tem um registo de bónus sem depósito (Casino Portugal). Sobre sete plataformas, uma frase de pagamento em criptomoedas: a da Solverde. É o que os termos dizem.

Perguntas frequentes

Podem as casas de apostas licenciadas em Portugal aceitar criptomoedas?

Podem, se a lei não as proíbe — e não as proíbe. O Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online não tem nenhuma linha sobre criptoativos: nem uma proibição, nem uma autorização. O que exige é que os instrumentos de pagamento sejam eletrónicos, em euros, emitidos por prestadores autorizados e que identifiquem o pagador, e que o levantamento vá apenas para a conta de pagamento nominal do jogador. O que aceita cada casa diz nos termos da casa.

Como confirmo que uma casa de apostas tem licença do SRIJ?

Na lista «Entidades licenciadas» do SRIJ, a que é atualizada. Aí estão a marca, a licença e a entidade que a detém. No sítio, o logótipo do SRIJ e a referência da licença são obrigatórios por lei. Se o domínio termina em .com e não em .pt, não é uma casa portuguesa com licença: é uma casa estrangeira a servir Portugal, e isso é ilegal.

Porquê que uma casa de apostas licenciada exige a verificação da identidade?

Porque a lei não admite jogo anónimo. O registo exige NIF e os identificadores da conta de pagamento do próprio jogador, e a identidade é verificada com Cartão de Cidadão, Chave Móvel Digital, uma verificação em tempo real através do SRIJ ou uma cópia de documento. A conta é uma por pessoa por sítio. É a mesma exigência que torna a aplicação anulada se houver erro de pagamento: uma casa sem identidade nada tem a perder.

Que limites de depósito e de aposta existem numa casa de apostas licenciada em Portugal?

A lei não fixa tampa em euros. O que exige é um mecanismo: o plano de jogo responsável da casa tem de permitir limitar depósitos e apostas, com pelo menos um limite diário, semanal ou mensal, válido apenas no operador onde foi definido. Os limites que o jogador fixar contam para os créditos de bónus. Cada operador pode fixar os seus limites de stake — os seus, não os seus — e publicá-los, e o caso do Placard.pt dá o exemplo de uma aposta mínima de 0,10 €.

O que arrisca quem aposta numa casa de apostas sem licença do SRIJ?

Enfrenta uma contraordenação com coima de 2 500 € a 25 000 €, segundo o SRIJ, e fica sem qualquer proteção: sem verificação de identidade, sem ferramentas de limite, sem registo central de autoexclusão. Do lado de quem opera, aceitar jogadores portugueses sem licença é crime, punível com prisão até cinco anos ou multa até 500 dias. A SRIJ notifica operadores ilegais para pararem em 48 horas e, não parando, notifica os prestadores de serviços para tornarem o acesso impossível em 48 horas.

Os ganhos das apostas desportivas pagam imposto em Portugal?

Sob as regras tal como estavam em outubro de 2026, os prémios pagos por um operador licenciado não são tributados nas mãos do jogador nem declarados — mas isso é uma afirmação veiculada pela imprensa, não confirmada numa página da Autoridade Tributária, por isso confirme com a Autoridade Tributária ou com um contabilista. Os 28 % da taxa autónoma e o regime dos 365 dias são para criptoativos, não para apostas. O que a casa paga é o IEJO, de 8 % sobre as stakes, não sobre a receita bruta. E o prize, aqui, é um resultado de jogo, não uma mais-valia.

Conteúdo criado pela equipa «Dicasapostasdesportpt.com»